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Os Paulicianos (50-1473 d.C.)

Voltando para as igrejas que nunca aderiram ao sistema romano, passamos a considerar as igrejas da região chamada “Ásia Menor”, (hoje Turquia e parte da antiga União Soviética), as quais permaneceram nas primeiras verdades. Estas foram também acusadas de adotar o maniqueísmo, mas segundo os seus próprios escritos não há a menor evidência disso.
Estes irmãos não aceitavam nenhum nome sectário e chamavam-se uns aos outros simplesmente de irmãos ou cristãos. Contentavam-se em fazer parte da “santa, universal e apostólica igreja de nosso Senhor Jesus Cristo”. Cada igreja era autônoma, diretamente responsável ao Senhor Jesus.
Recusaram-se a manter comunhão com as igrejas romana, grega e armênia por causa da infidelidade delas. Afirmaram que elas não tinham mais o direito de serem reconhecidas como igrejas verdadeiras e apresentaram várias razões nas quais fundamentaram o seu posicionamento.
1. A união das igrejas com o estado.
2. O “batismo” de crianças
3. A permissão da participação de descrentes na Ceia do Senhor.
4. Outros males que haviam sido introduzidos.
Estes irmãos e igrejas fiéis foram alcunhados com os nomes de “Paulícios” (não se sabe por quê), ou de “Thonraks”, por serem eles mais numerosos na cidade que tinha aquele nome, e mais tarde, quando chegaram à região hoje chamada Bosnia, foram chamados de “Bogomilos”, palavra eslavônia que significa “amigos de Deus”.
Este movimento espiritual continuou por centenas de anos. Quase toda a sua literatura foi destruída, mas permaneceu um livro chamado “A Chave da Verdade”, publicado entre os séculos 7 e 9, o qual apresenta as crenças dos Paulícios de Thonrak daquela época. Apresentamos, abaixo alguns pontos de interesse:
1. O baptismo deve ser ministrado apenas a crentes verdadeiros.
2. Deve ser realizado em rios ou outra água, ao ar livre.
3. O batizando deve ajoelhar-se na água e confessar a sua fé perante o povo.
4. O batizador deve ser um homem moralmente irrepreensível.
5. A reunião do batismo deve ser acompanhada pela leitura da Palavra e pela oração.
Alguns nomes de líderes daquelas igrejas ainda são conhecidos. Entre eles consta o de Constantino (que mais tarde adotou o nome de Silvano). Este foi convertido no ano de 653 d.C., quando passou pela casa dele um armênio que fora prisioneiro dos turcos, fora libertado e estava no caminho de volta para casa. Ele ficou muito grato a Constantino pela hospitalidade e deu-lhe um manuscrito contendo os 4 evangelhos e as epístolas de Paulo. Constantino leu, converteu-se e tornou-se um obreiro incansável. Fixou residência em Quibossa, na Armênia, mas passou a viajar muito para vários lugares ao redor. O resultado deste esforço foi a conversão de muitos católicos e pagãos.
Após trinta anos de trabalho incansável foi Constantino Silvano denunciado a Constantino Pognotus, imperador da parte oriental do Império Romano, o qual emitiu um decreto em 684 d.C. determinando a morte daquele fiel servo do Senhor. Um oficial chamado Simeão foi enviado para cumprir o decreto. Este colocou pedras nas mãos dos próprios amigos de Constantino Silvano e determinou que eles executassem o apedrejamento do mestre tão amado, julgando com isto dar um significado especial àquele ato. Todos, porém, com uma única exceção, arriscando as suas próprias vidas, negaram-se a atirar as pedras. A exceção foi um jovem chamado Justo (que de justo só tinha o nome), que fora criado por Constantino e da parte dele fora agraciado com especial bondade, arremessou uma pedra que atingiu e matou o seu benfeitor, recebendo com isto grande louvor das autoridades. Assim, o falso “Justo” transformou-se em verdadeiro Judas.
Mas este não é o fim da história! Simeão, o oficial responsável por aquele assassinato, ficou tão impressionado pelo que viu em Quibossa, que não teve mais paz de espírito quando voltou à corte do Imperador. Após três anos de intenso conflito íntimo converteu-se a Cristo e abandonou tudo, voltando para Quibossa. Ali mudou o seu nome para Tito e continuou o trabalho iniciado por Constantino. Dentro de pouco tempo, porém, Justo, o mesmo traidor que apedrejara Constantino Silvano entregou-o ao Imperador, juntamente com muitos outros cristãos, o qual mandou que todos fossem queimados vivos, esperando com isto infundir terror a todos quantos pertencessem àquela “seita”.
Entretanto, aquela medida produziu efeito contrário! Tal foi a demonstração de fé e coragem daqueles irmãos na hora da sua morte, que milhares de outros foram encorajados a continuar ousadamente o trabalho! Isto confirma que, como alguém tem dito, “a perseguição é somente a segunda alternativa do diabo para destruir a obra de Deus. O melhor mesmo é a divisão e dissenção internas”.
Finalmente, depois de muitos anos, nos séculos 14 e 15, aquelas igrejas declinaram e desapareceram. Algumas aliaram-se à Igreja Católica devido à perseguição da Igreja Armênia. Outras, numa outra região, aliaram-se aos muçulmanos e o resultado foi a extinção. O princípio de aliar-se com alguém só porque tem o mesmo inimigo nunca foi uma boa idéia. É preciso ter muito mais em comum.


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