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CAPITULO V
REFORMA E MISSÕES

Introdução
Após mais de 1.000 anos na sombra dos interesses políticos e econômicos, a Igreja é sacudida por um movimento de peso que cria condições de mudanças profundas e duradouras. Tra­ta-se da reforma iniciada por Lutero no começo do século XVI. Tentativas anteriores tinham mobilizado partes da Igreja por períodos mais ou menos longos, porém, é a partir da reforma protestante que uma parte significativa da Igreja busca uma volta aos conceitos neotestamentários de igreja e de vida cristã. Oficialmente a Igreja de Roma não aceitou as mudanças pro­postas pelos reformadores e os excomungou. O movimento, no entanto, era forte e “conquistou” regiões importantes dando origem a diversas ramificações protestantes.

Antecedentes e razões para a Reforma
1.1. Antecedentes
A pré-reforma de Wycliffe e Hus deixou marcas na sociedade em que viviam, causando reações por parte do povo contra a relutância da Igreja em aceitar as reformas propostas por eles.
Mas o tempo era de mudanças. Destacam-se:
- Mudanças geográficas
- Mudanças políticas
- Mudanças econômicas
- Mudanças sociais
- Mudanças intelectuais
- Mudanças religiosas
1.2. Razões para a Reforma
- As mudanças acima citadas criam a expectativa de reformas também na estrutura eclesiástica vigente. O “sagrado” é passivo de questionamento e de rein­terpretações.
- A decadência moral da Igreja leva a um desconten­tamento geral por parte do povo e até de uma parte do clero.
- A abertura da época para o livre pensar com base no humanismo nascente e nas próprias Escrituras.
- A atuação do Espírito Santo de Deus levantando homens com coragem para irem contra o poder político e religioso (dogmático) da Igreja de Roma.
Certamente existem outras causas para a Reforma sendo, entretanto, uma das principais, a decadência da Igreja.

2. A decadência da Igreja
Pode parecer propaganda protestante falar sobre a deca­dência da Igreja Romana. Não obstante, era uma realidade no tempo vivido por Lutero e os demais reformadores. O próprio Lutero era da Igreja e queria reformá-la de dentro para fora. Destacam-se algumas áreas mais críticas de declínio dos pa­drões bíblicos:
2.1. A opulência da Igreja - enquanto muitos viviam na miséria.
2.2. A taxação escandalosa - aborrecendo a classe média.
2.3. Os escândalos papais - dissensões e imoralidade.
2.4. O declínio das ordens monásticas - corrupção e imora­lidade.
2.5. O cruel tratamento dos “hereges” - por exemplo: Hus.
2.6. A relutância em aceitar as mudanças na sociedade e, consequentemente, também dentro da Igreja.
2.7. O jugo com o poder político e econômico.

3. Os reformadores
Não podemos neste contexto analisar todos os aspectos da Reforma nem fazer justiça ao papel desempenhado pelos re­formadores, traçando biografias completas. Interessam-nos, principalmente, dois aspectos: a visão missionária dos refor­madores e os resultados da Reforma para missões.
No entanto, alguns dados biográficos nos ajudam a colocá-­los na história.
3.1. Martinho Lutero (1483 a 1546)
Filho de camponeses alemães. O pai teve êxito na in­dústria de mineração e pôde dar bons estudos ao filho. Estudou na Universidade de Erfurt, colando grau de mestre em 1505. Iniciou estudos de Direito, mas teve uma forte experiência emocional e decidiu ser monge, ingressando para a ordem agostiniana. Foi ordenado ao sacerdócio em 1507. Bacharel em Teologia em 1509 e Doutor em Teologia em 1512 em Wittemberg.
Em Roma, durante dois anos de estada ali (1510 e 1511) descobriu a corrupção e a luxúria da Igreja, vendo a necessidade de mudanças.
Em 1517 afixou as 95 Teses, iniciando uma série de debates. Foi excomungado pelo papa Leão X em 1520. Lutero criticou fortemente o sistema das indulgências e a corrupção dentro da Igreja. Traduziu a Bíblia para o alemão em 1534, tendo já traduzido o Novo Testa­mento em 1522.
Contribuiu na reforma da liturgia, no estabelecimento de doutrinas básicas, no uso do idioma nacional nas missas e na moralização dos sacerdotes. A justificação pela fé e não por obras foi, sem dúvida, sua principal tese. Deixou, com sua morte, a liderança para Filipe Melanchton. Devido a divergências com outros líderes reformadores e seu envolvimento pessoal, defendendo atitudes erradas de amigos, Lutero perdeu apoio de muitos e outras ramificações surgiram.
3.2. João Calvino (1509 a 1564)
Francês, criado num ambiente de cidade na França, tornou-se um dos líderes da Reforma protestante. Es­tudou Direito e Ciências Humanas em Paris. Em 1533 experimentou, através do estudo da Bíblia, uma instan­tânea conversão. Aceitou o ensino de Lutero sobre a justificação pela fé, mas da forma exposta por Melanch­ton, separando a justificação diante de Deus no céu, do novo nascimento na terra do homem convertido. De­senvolveu o pensamento que Deus é um regente abso­luto, tendo o poder total como característica principal. Costuma-se simplificar o teologia de Calvino, usando o anagrama TELIP:
T - Totalidade da depravação humana
E - Eleição incondicional
L - Limitação da redenção aos eleitos
1 - Irresistibilidade da graça
P - Perseverança dos santos.
3.3. Huldreich Zwinglio (1484 a 1531)
Suíço, estudou em Viena e Berna. Foi ordenado sacer­dote católico em 1506. Cerca de 1516, experimentou uma abertura para a fé evangélica semelhante a de Lutero. Voltou-se para o estudo das Escrituras atacan­do o sistema medieval da Igreja em 1518. Pregou de forma exegética na catedral de Zurique, onde era pas­tor, marcando o início de suas reformas.

4. A visão missionária dos reformadores
De uma forma geral tem-se criticado os reformadores por não possuírem uma visão missionária maior. Parece lhes faltar o interesse de levar as descobertas da fé para outras partes do mundo conhecido. Numa comparação com movimentos pos­teriores dentro do próprio protestantismo, pode-se dizer que tal crítica é fundada. Entretanto, se analisarmos o contexto em que os reformadores viveram e suas preocupações prioritárias, podemos entender seus poucos projetos missionários.
Também seria incorreto dizer que não houve tentativas. Calvino e Coligny, líder dos huguenotes (nome dado aos pro­testantes na França) se esforçaram para estabelecer colônias em ambas as Américas, com a intenção de ganhar os pagãos.
Algumas razões para o “pouco interesse” missionário são:
4.1. A compreensão dos limites da Igreja - cada paróquia em seu território.
4.2. Batalhas militares e políticas na Europa.
4.3. A escolástica protestante com declínio espiritual.
4.4. A rejeição do monasticismo ficando sem estrutura missionária.
4.5. A preocupação com a reforma em si.

5. Os Anabatistas
Surgiram primeiramente na Suíça onde havia maior liber­dade. A influência de Zwinglio no uso das Escrituras encorajou o movimento.
Conrad Grebel (1498 a 1526) é tido como o fundador. Apoiado em Zwinglio, que via no batismo infantil algo contrá­rio às Escrituras, Grebel e outros foram batizados por imersão. Em 1525, Zwinglio rompeu com o movimento anabatista, tornando-se forte opositor, inclusive, reconhecendo novamen­te o batismo infantil. Uma forte perseguição levantou-se con­tra os anabatistas na Suíça. Os seus seguidores foram mortos por afogamento e em 1531 o movimento praticamente não existia mais no país devido às mortes e à emigração para outros países.
Um dos primeiros anabatistas alemães foi Balthasar Hub­maier (1481 a 1528). Doutor em Teologia pela Universidade de Ingolstadt, era adversário de Lutero. Em 1525 ele e mais 300 seguidores foram batizados por afusão. Foi queimado numa estaca em 1528 por ordem do Imperador e sua esposa, afogada no Danúbio pelas autoridades católicas romanas. En­sinou a separação entre Igreja e Estado, a autoridade da Bíblia e o batismo dos crentes.
Na Holanda, os anabatistas, mas conhecidos como “os ir­mãos”, passaram a ser conhecidos como menonitas, conseguin­do liberdade religiosa em 1676.

6. Resultados da Reforma para missões
Para o cumprimento da tarefa missionária da Igreja, a Re­forma contribuiu positivamente em muitos aspectos. Além da Reforma em si, com uma tentativa de voltar aos conceitos bíblicos de igreja e de vida cristã, podemos citar alguns resul­tados:
6.1. Uma nova compreensão do Evangelho e da justificação.
6.2. Uma nova estrutura mais adequada e contextualizada da Igreja.
6.3. Liturgia na língua do povo e tradução da Bíblia.
6.4. Lugar para o ministério do leigo, facilitando a expansão.
6.5. O surgimento de ramificações diferentes, dando liber­dade de expressão e possibilitando ênfases diferentes de ministério.
6.6. Separação da Igreja do Estado, deixando a identificação do Evangelho com o poderio político/militar/econômi­co. (O processo foi rápido em alguns casos; em outros ainda está em andamento).


Próximo Capítulo: VI - O período dos descobrimentos


Extraído do livro: História de Missões
Um Guia de estudo da história missionária
Autor: Bertil Ekström
Gentilmente cedido pelo Pr.Silon O.do Nascimento de Sapucaia do Sul-RS



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