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Carta do Pastor Voges à
"British & Foreign Bible Society"

Um documento raríssimo e super interessante sobre a história dos evangélicos no Brasil datado de 1827, em um lugar intitulado na época Colônia de Dom Pedro de Alcântara, hoje município de Itati, no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Vossa Excelência:

Recebi corretamente a vossa estimada carta de 27 de janeiro de 1826 e a fatura referente a 100 Bíblias e 250 Novos Testamentos, encadernados, as quais a mui respeitável British & Foreign Bible Society se tem dignado a outorgá-los para o bem da comunidade evangélica Alemã de São Leopoldo e, que foram enviados via Rio de Janeiro ao Sr. M. May. Mas isto, visto que ainda não recebi êsse presente, escrevi ao Sr. May indagando se estas Bíblias já chegaram ao Rio de Janeiro. Mandarei notícias sobre o correto recebimento o mais breve possível.

V. Exa bem como a mui respeitável sociedade tem manifestado o desejo de saber o número de membros da minha comunidade e o número de suiços no Brasil. Por isto passo a relatar, em seguida, o número total conforme meu registro:
No RIO DE JANEIRO: há 2500 militares, dos quais 2000 se confessam à religião evangélica. O número de habitantes alemães no Rio de Janeiro não o conheço até o momento.

No PERNAMBUCO: Há 600 pessoas, dos quais 581 professam a religião evangélica. Este número está aumentando sempre mais, pelo número de novos colonos que estão imigrando. Os militares demitidos são enviados às colônias.
A COLÔNIA DE SÃO LEOPOLDO, na província do Rio Grande do Sul, de 12 léguas quadradas, tem 308 famílias, 1130 almas. Destas, 52 famílias (230) almas, confessam a religião católico-romana.

A Segunda COLÔNIA, DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA, na mesma província, de 28 léguas quadradas, conta agora com apenas 96 famílias, 448 almas, das quais 8 famílias (27 almas) professam a religião católico-romana.
Mais ao Norte da missão imigraram há um ano 12 famílias e alguns solteiros, naturais do grão-ducado de Mecklemburgo. Já tinham chegado à capital do Rio de Janeiro, como tinha sido acertado. Mas, para assegurar aos colonos já estabelecidos as suas propriedades foram mandados pelo governo, dalí mais para o interior, o qual em parte estava habitado por índios convertidos.

NA PROVÍNCIA DA BAHIA, a Colônia alemã de Leopoldina, denominada segundo o nome de Sua Majestade, a saudosa Imperatriz do Brasil, teve a 08 de agosto de 1825, data em que foi enviada a lista, 80 famílias (345 almas) em parte suíços reformados, em parte meninotas e protestantes alemães.

A COLÔNIA SUIÇA DE NOVA FRIBURGO, na Provincia do Rio de Janeiro, no distrito de Cantagalo, tem agora 130 famílias, 430 almas, de reformados da suiça francesa e 96 alemães (237 almas) protestantes.

Por falta de pregadores evangélicos não está contratado um pregador para os regimentos alemães.
As colônias Alemãs do Brasil recebem um pregador, um professor, um médico e uma farmácia.

O ministério do pregador evangélico de São Leopoldo está exercido pelo Sr. EHLERS do reino Hannover (anteriormente sacristão-mor em Hamburgo. Professor da Colônia é o Sr. GEORG HEINRICH MOOTZ, do Reino da prússia, província do Hesse Renano (formado na Escola Normal do Ducado de Hesse, em Friedberg).

A Segunda Colônia Alemã no Brasil, São Pedro de Alcântara, onde estou atualmente como pregador, construiu o primeiro templo evangélico no Brasil com 66 pés de comprimento, 34 pés de largura, 24 pés de altura, tudo feito na mais bonita madeira de cedro, mas no interior ainda inacabado, poque minha comunidade e eu somos ainda por demais pobres para completar a igreja adequadamente. Esperamos por novos imigrantes para com a ajuda deles, arrumá-la completamente. O professor da Colônia é Peter Paul Müller, do Reino da Prússia, Província da Renânia, formado na Escola Normal Real Prussiana de Neuwied (um moço erudito, do qual tenho as melhores esperanças de que irá semear boa semente nos corações de seua alunos, semente esta que trará bons frutos também nos anos posteriores de suas vidas).
V. Exa e mui respeitável British e Foreign se dignam a oferecer-me um número maior de Bíblias para as comunidades Alemãs no Brasil, se delas precisasse. Por isto aceito a oferta benévola, pedindo mais 800 Bíblias e 800 Novos testamentos. Pois, nos corações de todos alemães, protestantes e católicos se faz sentir penosamente a falta de livros de edificação espiritual. Nas famílias, as quais possuem uma Bíblia, as Sagradas escrituras, estão sendo lidas muito mais. E, está lhes sendo atribuido um valor muito maior do que na Alemanha. O pai de família, o qual possui uma Bíblia, lê aos seus familiares um capítulo da Sagrada Escritura aos domingos e feriados, e, eles cantam alguns hinos que aprenderam em sua juventude, ou hinos de edificação espiritual que as crianças aprendem na escola. Nisto consiste seu culto, pois, é impossível assistir a prédica todos os domingos, em parte por causa da distância da casa do Pastor, e em parte também por causa do tempo freqüentemente chuvoso, e desta maneira, a religião de JESUS está se alastrando mesmo em face dos maiores impedimentos.

V. Exa e a mui respeitável Sociedade Bíblica querem também saber se houvesse porventura alguns membros da comunidade Alemã que pudessem pagar uma certa quantia para a Bíblia ou Novo Testamento, em língua portuguesa. Notifico a V. Exa. E a mui respeitável Sociedade Bíblica que a maioria dos colonos pode pagar uma certa quantia para uma Bíblia ou Novo Testamento. Peço remeter-me logo algumas Bíblias. Sobretudo peço remeter-me 200 Novos testamentos em língua portuguesa para acender a verdadeira luz das Sagradas Escrituras também nos pobres portugueses. É que na cadeira dos apóstolos e dos profetas estão assentados líderes cegos que não possuem a maneira de pensar dos apóstolos. Entre a grande maioria dos sacerdotes, no Brasil raras vezes se consegue um Novo Testamento e muito menos ainda uma Bíblia inteira. Entre os leigos nem se acha um Novo testamento nem uma Bíblia inteira. Só um rosário. Existe pois, muito mais é ignorância e superstição.

Tomo também a liberdade de notificar a V. Exa. E mui respeitável Sociedade Bíblica, de como estão sendo tratados os colonos alemães aqui no Brasil:

1º- Eles são subsidiados, bastante, por Sua Majestade, o Imperador. Durante dois anos recebem subsídios: 8 vinténs por cabeça e por dia. Um pai de família que tem uma família grande, vive em melhores condições do que tem a família pequena. Daí um pai de família que vivia na miséria na Alemanha, é um homem abastado aqui.
2º- Os colonos recebem os instrumentos necessários para a lavoura;
3º- Os colonos recebem a roupa mais indispensável;
4º- Durante 10 anos recebem médico e remédios gratuitos;
5º- Durante 10 anos estão isentos de impostos estatais;
6º- Cada colono recebe 600 jugadas alemãs de terra (uma jugada alemã corresponde a ¼ de hectare, mais ou menos);
7º- Cada colono recebe 3 cavalos, uma vaca com bezerro, 2 bois de canga, porcos e gansos;

Os colonos recebem também as suas casas, construídas em estilo brasileiro.
O clima aqui é moderado. Há duas estações: a chuvosa e a seca. E, uma primavera perpétua.

Medram aqui todas as frutas e plantas européias.
Recomendamos a futura estima de V. Exa. E da mui respeitável Sociedade, tenho a honra de chamar-me
O mais atencioso servidor de V. Exa.

CARL LEOPOLD VOGES
Pregador da Colônia de São Pedro de Alcântara e Éforo das comunidades protestantes no Brasil.
Colônia de São Pedro de Alcântara, 02 de fevereiro de 1827.



Extraído do livro Três Forquilhas, de Elio E. Müller, Editora Fonte, 1992.



  • Nota: o Pastor Silon possui uma Bíblia encontrada nesta Colônia, editada em 1819 (Bíblia protestante). Também possui um manual Bíblico em língua alemã editado em 1789, em perfeito estado de conservação. O mesmo usado pelos pastores reformados dos Catões suíços. Se alguém tiver o interesse em conhecer ou adquirir estes dois livros, entrar em contato por mailto:valmirbsilva@yahoo.com.br




Fonte destas informações: Pr: Silon O.do Nascimento
Igreja Batista Betel – Taquari-RS
Todos os artigos são de inteira responsabilidade de seus autores.


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